domingo, 13 de maio de 2012

Os Mutantes "Jardim Elétrico"


Os Mutantes são uma banda muito conceituada no Brasil e no mundo, seja pela comparação aos Beatles (desmedida em certo ponto) ou à importância de suas composições que ainda vigora até hoje. Com sua discografia em mãos, resolvi conhecer um pouco mais a banda e fui ouvir o disco “Jardim Elétrico”. Se você já conhece a sonoridade do grupo, não vai se surpreender com o álbum: é psicodelia e deboche puro. 


Os Mutantes em Paris, onde gravaram o álbum em 71
A primeira faixa, “Top Top”, já entra com um instrumental enlouquecido (a bateria, principalmente, é bem frenética), e uns vocais agudos bem irritantes. A letra, fala de amor, como quase todas as poesias da obra. Aí depois o disco dá uma desacelerada, com “Benvinda”, que não é nada demais. Uma música realmente bonita e bem-feita, que possui um espírito muito Beatles, é “Technicolor”. Os instrumentos parecem estar sendo tocados pelo próprio Fab Four (essa foi a impressão que me deu), e o arranjo vai fazer você pirar, com certeza, é um dos momentos altos de inspiração dos Mutantes no álbum. 


“El Justiciero” é outra canção que merece destaque, com letra em inglês e em espanhol e um violão de Sérgio Dias de arrepiar, é uma música de detalhes e esmero, revelando que a veia latina dos paulistas é ainda mais abrangente. Há ainda outras faixas divertidas como “It’s Very Nice Pra Xuxu” (com referências a outras músicas dos Mutantes) e “Portugal de Navio”. De volta a uma vibe meio Beatles, temos “Vírginia”, que é uma bela canção de amor, com um bonito solo de corneta (ou algo parecido).


A capa do álbum, toda sessentista!
De resto, Os Mutantes garantem muita psicodelia “em tecnicolor” com seu instrumental afiado na faixa “Jardim Elétrico”. Um fato curioso é que a banda parecia muito preocupada com a sonoridade do álbum, buscando recursos eletrônicos comparáveis aos discos mais modernos da época, com viagens em “3D” e um som de guitarra bem ousado. Um dos momentos mais bonitos da guitarra é na música “Lady, Lady”, com um solo lento, poucas notas, bem no sentimento. Ainda possui uma flauta inusitada. Aliás, alguém reparou alguma semelhança entre o início de “Saravá” e a música “Billy Jean”, do Michael Jackson?


Por fim, em inglês, a música “Baby”, que ficou famosa na voz de Gal Costa no álbum “Tropicália ou Panis Et Circenses”. Talvez a poesia não fique tão forte quanto em português, com as rimas doidas de “margarina, gasolina, Carolina”, mas ainda está boa na voz de Rita Lee, que é uma bela intérprete. No fim das contas, o disco “Jardim Elétrico” deixa muito satisfeito quem esperava boa música, seja ela brasileira ou inglesa, já que para os Mutantes não há fronteiras. Na mistureba que é a sonoridade da banda, vale tudo! E vale muito a pena conhecer mais esse álbum da banda.

Alguns links de outros blogs para você baixar o álbum: Clique aquiaqui ou aqui!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Huuum Casadinho

Decepção era a palavra. Tudo o que se constrói em alguns meses pode virar pó em alguns minutos. Os planos para o futuro e os sonhos flutuantes continuaram presos naquela roupa de cama, naquela fronha de travesseiro. Ao abrir os olhos havia só um teto de madeira escura e um ventilador pedindo paz. Cansado de tanto girar. Impossível até mesmo de se lembrar quando fora a última vez que esse ventilador foi ligado. Só faz girar, não diz nada, não sente. Então como pede pra parar? Imagine se algum dia ele parasse de girar e pedisse pra parar, assim, do nada.

Nem microfonia, nem o jornal de hoje. Nada disso explica a capacidade das coisas tomarem vida e pegarem no remo a qualquer instante. Isso parece meio absurdo, de certa forma assustador. Talvez a solução a tomar, à primeira vista, caia naquele velho ditado que fala sobre prevenir e remediar. Mas nem sempre resolve: mesmo que você queira, que tenha tudo e todos ao seu lado (até mesmo uma frase milenar), não dá pra evitar o desencontro, a fatalidade. Porque sempre depois de uma palavra, vem uma vírgula com outra palavra completamente desnecessária. Mas há uma necessidade até mesmo nesse caso.
Qual o sentido de ficar procurando ritmo pra tudo, se o conteúdo é o mesmo? Talvez o certo seja cada um encontrar seu modo de degustar, assim como cada um tem seu ritmo à mesa. Mas o sabor da feijoada continua o mesmo, depois da sobremesa. Até porque depois do doce, a gente esquece o salgado. Talvez seja por isso que botam a sobremesa depois do almoço, e as coisas boas depois das coisas ruins. Não que o almoço seja ruim. Aliás, se você esteve esperto enquanto lia, viu que mais uma vez a desnecessidade apareceu de novo, talvez tenha ajudado alguém. Ou talvez eu não devesse colocar tantos "talvez" nesse texto.
Mas antes de enjoar da minha insegurança, saiba que não estou nem um pouco inseguro, e que fiz um texto simplesmente porque quis. Tudo isso aí é uma baboseira, pode esquecer. Agora vá procurar uma coisa doce pra tirar o gosto.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para comemorar a internet nova

E aí queridos, tô de volta escrevendo posts sobre discos e tal. Sei que essa nem é mais a atração principal do blog (se é que existe algum atrativo pra visitar essa bagaça) mas achei que botar uns links de download dos álbuns que ando ouvindo seria uma boa. Aliás, minha internet não é mais aquela ruinzinha, e para comemorar esses 1mb tô baixando coisa adoidado. E claro, ouvindo tudo né, e mostrando pra vocês qual é o papo do rock and roll. Alguns vão ser meio óbvios, tipo, grandes álbuns superfamosos que eu só estou conhecendo agora, então não fiquem chateados se vocês já conhecerem a maioria.


Loki? (Arnaldo Baptista) - Como todo mundo que curte boa música brasileira, gosto muito de Mutantes e já ouvi os discos deles várias e várias vezes, e me interessei pela carreira solo dos integrantes. Comecei logo por essa obra-prima de Arnaldo Baptista, "Loki?". Meio que uma ópera-rock, álbum conceitual, drama poesia lunática. Meio que uma Balada do Louco de 30 minutos.


Transformer (Lou Reed) - Mesma coisa com o Arnaldo. Passei as férias ouvindo Velvet (com o meu querido primo Rafael), e fiquei fascinado pelo seu frontman Lou Reed. E Transformer é uma surpresa, justamente por ser algo tão bom quanto uma banana serigrafada. É pura poesia norte-americana, música de três acordes, travestis. E Perfect Day é A música pra se ouvir num sábado ensolarado.


I Had The Blues But I Shook Them Loose (Bombay Bycicle Club) - A melhor indiezera dos últimos tempos. Um grupo que sabe transitar entre guitarras distorcidas que abalam suas ventas e a fragilidade de um post-punk anos 80. Belo instrumental, os caras mandam muito bem mesmo. Pena que o segundo disco é acústico, não tem a mesma porrada desse aí. Aposto muito nessa banda.


The Suburbs (Arcade Fire) - Trilha sonora para quem terminou com a namorada hehe. Uma banda que tem uma galera tocando um monte de instrumento, que faz um som bem original calcado num popzinho anos 2000 e umas pitadas de post-punk (afinal, esse gênero está em voga sempre). É um álbum conceitual meio longo, tem uma hora, mas vale a pena ouvir. Só achei a ideia em geral meio pobrinha. "Nos subúrbios, eu aprendi a dirigir"... Style


Fold Your Hands Child, You Walk Like A Peasant (Belle & Sebastian) - Você tem que ouvir! (Assim como toda a discografia deles). É simplesmente lindo, é como se toda a música pop boa de todas as decádas convergessem em uma banda de uma genialidade infinita e fizesse um monte de álbuns bons explorando todo tipo de musicalidade possível. Ainda não ouvi tudo, aliás. Mas esse disco foi o que mais gostei agora (e que inclusive me inspirou no post "Duas Marias aqui no blog).


Free Ride (Dizzy Gillespie) - Pra quem tem curiosidade em ouvir jazz, mas não sabe qual é o papo. Eu, por exemplo. É um disco de um grande trompetista, com ótimos músicos, tocando super bem ao longo de faixas com um apelo pop setentista. Tem inclusive um samba, maravilhoso, uma das melhores músicas já gravadas pela humanidade, "Incantation". A mixagem é muito boa também, diferente dos álbuns de jazz dos anos 50 e 60 (esse é de 1977).


Escaldante Banda (Garotas Suecas) - Não é uma banda genial, nem um álbum incrível. É só pura diversão tropical (haha). Um misto de psicodelismo, soul e rock de garagem, como eles dizem. Pra ouvir e se animar, se embalar a um som muito bacana que só faz enriquecer ainda mais o vasto cenário da música brasileira atual, com bandas boas como essa. Ouça sem pretensão, que você vai adorar. Tem órgão, tem suingue, tem menina cantando, tem até o Jacaré no clipe deles! 




Link para download de todos esses álbuns: clique aqui!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Apartamento

As poucas caixas de papelão abertas cheias de coisas velhas dentro davam o tom da situação em que se encontravam os dois rapazinhos recém-chegados. Era um apartamento pequeno, a pintura nas paredes parecia datar de anos atrás, as janelas e as portas mal abriam direito (e quando, com um barulho de se fazer ouvir no prédio todo), a cozinha estava cheia de baratas e osgas caíam do teto a torto e direito. Tudo era desgastado, menos a vontade de viver. Lucas havia vindo para a capital estudar em uma grande faculdade, e Rafael estava lá para tocar uma loja de discos do seu amigo. Mal conheciam a cidade, e cada detalhe, por mais banal que fosse, se tornava apaixonante.

A vista da janela era simplesmente sem graça, e não tinha nada pra olhar, só fumar mesmo. Lucas trouxe um whisky antigo roubado dos pais para comemorar a liberdade, a onda branca de alegria, o arrepio na nuca. Um toque descuidado de Rafael, e a bebida balança no copo com os gelos rebolando. É preciso muito jogo de cintura mesmo pra não parecer outra coisa quando só se pode mostrar uma coisa em certas situações. Ou o tempo todo. Cigarros e álcool, a noite chegando, e o zumbido da vida lá fora parecia ficar mais alto a cada hora. Sem tempo para a euforia de dois meninos, olhando um para o outro, e olhando pra casa.

Daí o sonho acaba e vem aquele flash, aquela lembrança instantânea sobre responsabilidades que todo mundo que se acha alguma coisa não gosta de ter. Ou o contrário, Lucas ainda iria descobrir isso. Rafael ficaria só lendo livros mesmo, beijando Madame Bovary no colchonete furado cheio de traça na cabeça. O primeiro dia ia muito bom, músicas rolando no Stereo e fumaça de cigarro pela casa inteira. Na hora de escovar os dentes, teriam que dividir a mesma escova, mas isso era um prazer até meio que fraternal. Completamente, na verdade. Apesar de não serem parentes, não se importavam de se verem nus, afinal, toda nudez há de ser admirada.

Danem-se os gêneros, vamos ouvir um pouco desses dois rapazes tocando violão e cantando harmoniosamente. É o último cigarro e um pouco de cinza caiu no sofá. Tudo bem, nada que um pouco de amor de amigos não resolva. E a lua ia crescendo, as pessoas lá fora iam morrendo, as baratas passeando e nenhuma osga pra cair na cara de ninguém. Só um lençol e dois travesseiros, uma cama de madeira com os pés em falso e um pouquinho assim de inocência. Um gole de água, os lábios molhados e a respiração mais perto, descompassada com a sua. Embora nunca tivessem tentado, aconteceu. E se beijaram até o mundo acabar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tame Impala "Innerspeaker"

Entre meus amigos rola uma discussão que parece não ter fim, aquela questão polêmica que instiga nossas cabecinhas retardadas: o rock de hoje em dia é tão bom quanto o que era feito antigamente? Com a descoberta da banda Tame Impala o debate ficou mais interessante. Esses australianos se lançaram recentemente no cenário internacional e já se tornaram um fenômeno no meio alternativo, tocando em vários festivais por aí. Depois de ouvir o primeiro álbum deles (por enquanto o único), me assustei. Fazia tempo que algo não me surpreendia tanto, e o som psicodélico deles me agradou muito.

A primeira coisa que chama atenção no rock do Tame Impala é o vocal de Kevin Parker, que se assemelha fortemente com o do beatle John Lennon. E a semelhança com o fab four não pára por aí. A mixagem do disco é toda vintage, com destaque para a bateria, que parece ter sido gravada com um canal apenas. O som da banda é inspirado fortemente na década de 60 e as bandas psicódelicas da época, principalmente os Beatles e mais especificamente dois álbuns deles: Sgt. Peppers e Magical Mistery Tour. O que se percebe é que o grupo faz uma retomada ao passado, acrescentando sua musicalidade a gosto.

Seu estilo já fica bem claro na primeira música, "It's Not Meant To Be", com guitarras viajantes e uma linha de baixo muito bonita. Parker, o homem por trás do álbum (sendo que mais dois músicos gravaram algumas coisas também), usa vários efeitos na sua guitarra para tirar um som lindo, marcante, que permeia por todo o Innerspeaker ao lado do baixo e bateria mais rústicos - mas não menos trabalhados - e um senso melódico afiado. Vale a pena destacar as músicas "Alter Ego", com sua frase de guitarra - ou synth? - linda (viajo muito nessa); "Why Won't You Make Up Your Mind", com um ar meio etéreo e versos grudantes; "Solitude Is Bliss", que tem um clipe muito bacana (jogue no youtube); "Runaway, Houses, City, Clouds", piração de sete minutos, viagem pura e psicodélica do jeito que a gente gosta; dentre outras.

Apesar de a semelhança com o rock sessentista e setentista ser inevitável, após ouvir sua primeira obra, Innerspeaker, eu acredito que o Tame Impala faz algo mais do que simplesmente olhar para trás. A banda acrescenta algo novo no cenário do rock atual, não que seja melhor ou pior do que qualquer coisa. É a prova de que o passado é sim maravilhoso, com bandas maravilhosas e tudo, mas a boa música não se restringe apenas a esta época e ninguém está esperando o Messias chegar para ser o próximo Pink Floyd ou Led Zeppelin da vida. O Tame Impala faz essa sincera e apaixonada homenagem às bandas do passado, mas cria um som pra frentex que vai agradar tanto a galera retrô quanto a galera hipster.

Um agradecimento ao meu primo Lucas Estrela (que vai ficar meio puto de ver isso  aqui, mas tudo bem) e um beijo para vocês

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Albert Camus "O Estrangeiro"

Esse livro foi uma grande surpresa para mim nessa despretensiosa tarde de Segunda-Feira. Depois de ter lido o maravilhoso romance de Franz Kafka, "O Processo", procurei por uma leitura curta e aparentemente interessante. Daí lembrei desse "O Estrangeiro" que estava na minha estante há um bom tempo. Aliás, ele pertencia ao meu avô, e trata-se da primeira edição da obra no Brasil, pela Abril Cultural, de 1972 (!). E surpreendemente o livro não me deu alergia, pois estava lindão com as páginas muito pouco amarelecidas. Mas enfim, vamos se ater a obra em si, que é muito bom.
 
A música "Killing An Arab" do grupo The Cure, é inspirada no livro

O protagonista chama-se Sr. Meursault e é um daqueles personagens peculiares (perturbados, talvez?) que permitem-se a identificação se você é um deles - ou se tem um pouquinho deles aí dentro, o que provavelmente é verdade. Logo no primeiro parágrafo da narração, que é em primeira pessoa, percebemos que o tal Sr. Meursault é um sujeito indiferente ao mundo, e que tem um certo modo especial de lidar com as coisas: até mesmo a morte de sua mãe não parece lhe abalar. E a sua personalidade apática só se reafirma ao decorrer da primeira parte da história, que é pontuada com um desfecho trágico.



A segunda parte funciona como uma prova à pessoa de Sr. Meursault, que se vê diante de uma grande reviravolta na sua costumeira rotina. E aí a obra me lembrou o último livro que li, não por serem parecidos, mas por levantarem uma mesma questão: a culpa. O livro no caso é o já mencionado "O Processo". Vale ressaltar, com muito cuidado, que são livros diferentes que tratam de assuntos diferentes, mas que na minha opinião me ajudaram a pensar nesse negócio de culpa, justiça, responsabilidade, justamente por terem esses pontos em comum (mas apesar de nem sempre demonstrarem o mesmo posicionamento quanto a estes).


Caminhando para um final pessimista (ou otimista, depende de você), o livro demonstra como até mesmo um ser lunático, interpretado como um alienado em um ambiente normal, tem tudo a ver com a realidade. Afinal, como diz o livro em suas últimas páginas, em uma incrível epifania do Sr. Meursault, todo mundo é culpado do mesmo jeito, e condenado à mesma sentença. E se o mundo é indiferente, podemos pelo menos nos confortar em sermos indiferentes também.


Um beijo para todos e mais uma incrível recomendação literária do seu querido Mateus Pratagy s2



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Parte Um (Depois vem mais)

Está tudo pronto para o jantar. Refrigrante, pão careca (quentinho, acabou de sair do forno), queijo, presunto, manteiga. Tudo nessa sacola plástica branca meio que pesada que é carregada de modo a flutuar apenas alguns centímetros do chão. Chão sujo, fedido, sai até uma fumaça decorrente da chuva que acabou de cair. Faltam apenas alguns minutos para estar em casa, e o caminho que falta para chegar denuncia o seu atraso e a sua lentidão. Não tinha jeito, era sempre o último: o último da classe, o último da corrida da Educação Física, o último a chegar em casa para o jantar de todos os adolescentes que tinham que estar em casa na hora do jantar. A vida não é mole, meu amigo! Muito menos dura, afinal, a vida não tem forma física.

Havia um fato muito bom de estar andando pela rua a noite, com aqueles sacos sob os braços: as luzes dos postes eram muito bonitas. Eram douradas, fracas, com um brilho de criminalidade e delinquencia. Mas disso já estava farto: assistia todos os dias ao Jornal Nacional, banquete de sangue e derrame de vinho. Infelizmente, pelo jeito que iam as coisas, teria que romper o hábito hoje: a essa hora, já estava começando a novela das oito. Sem maiores preocupações: a violência e o desgosto estão na cabeça de quem os cria. Se bem que já chega de afirmações absolutas, absoluto só o tempo mesmo, que ia correndo um pouco mais rápido do que seus pés. E aqui há duas coisas a se comentar. Primeiro que, isso só reafirma o seu hábito de estar sempre em último. E segundo: caimos em absolutismos de novo.

Aliás, nada melhor do que afagar uma culpa de escritor do que tornar o leitor cúmplice do seu erro. (E vá lá, meu último absolutismo. Ou nosso, que seja.)

Sabe quando, progredindo em linha reta, as coisas acabam saindo confusas demais e, apesar de o objetivo continuar o mesmo, os meios ficam tortuosos? É como se pode explicar o que aconteceu: de um movimento retilínio, foi-se para um movimento em zigue-zague de pés pelo asfalto molhado. As luzes dos postes refletiam nas poças de água e pareciam ainda mais bonitas do que eram de verdade, acrescentavam prazer de andar pela rua - mesmo que pisando nessas poças e espalhando água pela calça . Surgia uma vontade louca de amar cada gato preto que passava por baixo de uma escada, cada velha fazendo croché ao som da novela dentro de suas casinhas decimonônicas, cada muro pichado de palavrões. Fica a dúvida se havia tanto coração para isso. Engraçado como para uns a falta é o excesso, e vice-versa. Veja o caso da Coca-Cola, quando ficar quente, ficará ruim, e amargurada para o resto da vida – enquanto que com o pão, é frio que fica desgostoso. Mas é claro que tudo isso se resolve com uma geladeira e uma chapa quente, respectivamente.

Do mesmo jeito que um rancor no coração se resolve com um beijo na testa.